segunda-feira, 16 de setembro de 2019

FALÁCIAS


1. Espantalho
Você desvirtuou um argumento para torná-lo mais fácil de atacar.
Ao exagerar, desvirtuar ou simplesmente inventar um argumento de alguém,
fica bem mais fácil apresentar a sua posição como razoável ou válida.
Este tipo de desonestidade não apenas prejudica o discurso racional,
como também prejudica a própria posição de alguém que o usa, por colocar
em questão a sua credibilidade – se você está disposto a desvirtuar
negativamente o argumento do seu oponente, será que você também não
desvirtuaria os seus positivamente?
2. Causa Falsa
Você supôs que uma relação real ou percebida entre duas coisas significa que uma é a causa da outra.
Uma variação dessa falácia é a “cum hoc ergo propter hoc
(com isto, logo por causa disto), na qual alguém supõe que, pelo fato
de duas coisas estarem acontecendo juntas, uma é a causa da outra. Este
erro consiste em ignorar a possibilidade de que possa haver uma causa em
comum para ambas, ou, como mostrado no exemplo abaixo, que as duas
coisas em questão não tenham absolutamente nenhuma relação de causa, e a
sua aparente conexão é só uma coincidência.
Outra variação comum é a falácia “post hoc ergo propter hoc
(depois disto, logo por causa disto), na qual uma relação causal é
presumida porque uma coisa acontece antes de outra coisa, logo, a
segunda coisa só pode ter sido causada pela primeira.


3. Apelo à emoção
Você tentou manipular uma resposta emocional no lugar de um argumento válido ou convincente.
Apelos à emoção são relacionados a medo, inveja, ódio, pena, orgulho, entre outros.
É importante dizer que às vezes um argumento logicamente coerente pode
inspirar emoção, ou ter um aspecto emocional, mas o problema e a falácia
acontecem quando a emoção é usada no lugar de um argumento lógico. Ou,
para tornar menos claro o fato de que não existe nenhuma relação
racional e convincente para justificar a posição de alguém.
Exceto
os sociopatas, todos são afetados pela emoção, por isso apelos à emoção
são uma tática de argumentação muito comum e eficiente. Mas eles são
falhos e desonestos, com tendência a deixar o oponente de alguém
justificadamente emocional.


4. A falácia da falácia
Supor que uma afirmação está necessariamente errada só porque ela não foi bem construída ou porque uma falácia foi cometida.
Há poucas coisas mais frustrantes do que ver alguém argumentar de maneira
fraca alguma posição. Na maioria dos casos um debate é vencido pelo
melhor debatedor, e não necessariamente pela pessoa com a posição mais
correta. Se formos ser honestos e racionais, temos que ter em mente que
só porque alguém cometeu um erro na sua defesa do argumento, isso não
necessariamente significa que o argumento em si esteja errado.


5. Ladeira Escorregadia
Você faz parecer que o fato de permitirmos que aconteça A fará com que aconteça Z, e por isso não podemos permitir A.
O problema com essa linha de raciocínio é que ela evita que se lide com a
questão real, jogando a atenção em hipóteses extremas. Como não se
apresenta nenhuma prova de que tais hipóteses extremas realmente
ocorrerão, esta falácia toma a forma de um apelo à emoção do medo.
6. Ad hominem
Você ataca o caráter ou traços pessoais do seu oponente em vez de refutar o argumento dele.
Ataques ad hominem podem assumir a forma de golpes pessoais e diretos contra
alguém, ou mais sutilmente jogar dúvida no seu caráter ou atributos
pessoais. O resultado desejado de um ataque 
ad hominem é prejudicar o oponente de alguém sem precisar de fato se engajar no argumento dele ou apresentar um próprio.
7. Tu quoque (você também)
Você evitar ter que se engajar em críticas virando as próprias críticas contra o acusador – você responde críticas com críticas.
Esta falácia, cuja tradução do latim é literalmente “você também”, é
geralmente empregada como um mecanismo de defesa, por tirar a atenção do
acusado ter que se defender e mudar o foco para o acusador.
A implicação é que, se o oponente de alguém também faz aquilo de que acusa
o outro, ele é um hipócrita. Independente da veracidade da
contra-acusação, o fato é que esta é efetivamente uma tática para evitar
ter que reconhecer e responder a uma acusação contida em um argumento –
ao devolver ao acusador, o acusado não precisa responder à acusação.
8. Incredulidade pessoal
Você considera algo difícil de entender, ou não sabe como funciona, por isso você dá a entender que não seja verdade.
Assuntos complexos como evolução biológica através de seleção natural exigem
alguma medida de entendimento sobre como elas funcionam antes que alguém
possa entendê-los adequadamente; esta falácia é geralmente usada no
lugar desse entendimento.
9. Alegação especial
Você altera as regras ou abre uma exceção quando sua afirmação é exposta como falsa.
Humanos são criaturas engraçadas, com uma aversão boba a estarem errados.
Em vez de aproveitar os benefícios de poder mudar de ideia graças a um
novo entendimento, muitos inventarão modos de se agarrar a velhas
crenças. Uma das maneiras mais comuns que as pessoas fazem isso é
pós-racionalizar um motivo explicando o porque aquilo no qual elas
acreditavam ser verdade deve continuar sendo verdade.
É geralmente
bem fácil encontrar um motivo para acreditar em algo que nos favorece, e
é necessária uma boa dose de integridade e honestidade genuína consigo
mesmo para examinar nossas próprias crenças e motivações sem cair na
armadilha da auto-justificação.
10. Pergunta carregada
Você faz uma pergunta que tem uma afirmação embutida, de modo que ela não pode ser respondida sem uma certa admissão de culpa.
Falácias desse tipo são particularmente eficientes em descarrilar discussões
racionais, graças à sua natureza inflamatória – o receptor da pergunta
carregada é compelido a se justificar e pode parecer abalado ou na
defensiva. Esta falácia não apenas é um apelo à emoção, mas também
reformata a discussão de forma enganosa.
11. Ônus da prova
Você espera que outra pessoa prove que você está errado, em vez de você mesmo provar que está certo.
O ônus (obrigação) da prova está sempre com quem faz uma afirmação, nunca
com quem refuta a afirmação. A impossibilidade, ou falta de intenção,
de provar errada uma afirmação não a torna válida, nem dá a ela nenhuma
credibilidade.
No entanto, é importante estabelecer que nunca
podemos ter certeza de qualquer coisa, portanto devemos valorizar cada
afirmação de acordo com as provas disponíveis. Tirar a importância de um
argumento só porque ele apresenta um fato que não foi provado sem
sombra de dúvidas também é um argumento falacioso.
12. Ambiguidade
Você usa duplo sentido ou linguagem ambígua para apresentar a sua verdade de modo enganoso.
Políticos frequentemente são culpados de usar ambiguidade em seus discursos, para
depois, se forem questionados, poderem dizer que não estavam
tecnicamente mentindo. Isso é qualificado como uma falácia, pois é
intrinsecamente enganoso.

13. Falácia do apostador
Você diz que “sequências” acontecem em fenômenos estatisticamente
independentes, como rolagem de dados ou números que caem em uma roleta.
Esta falácia de aceitação comum é provavelmente o motivo da criação da
grande e luminosa cidade no meio de um deserto americano chamada Las Vegas.
Apesar da probabilidade geral de uma grande sequência do
resultado desejado ser realmente baixa, cada lance do dado é, em si
mesmo, inteiramente independente do anterior. Apesar de haver uma chance
baixíssima de um cara-ou-coroa dar cara 20 vezes seguidas, a chance de
dar cara em cada uma das vezes é e sempre será de 50%, independente de
todos os lances anteriores ou futuros.
14. Ad populum
Você apela para a popularidade de um fato, no sentido de que muitas pessoas
fazem/concordam com aquilo, como uma tentativa de validação dele.
A falha nesse argumento é que a popularidade de uma ideia não tem
absolutamente nenhuma relação com a sua validade. Se houvesse, a Terra
teria se feito plana por muitos séculos, pelo simples fato de que todos
acreditavam que ela era assim.
15. Apelo à autoridade
Você usa a sua posição como figura ou instituição de autoridade no lugar de um argumento válido. (A popular “carteirada”.)
É importante mencionar que, no que diz respeito a esta falácia, as
autoridades de cada campo podem muito bem ter argumentos válidos, e que
não se deve desconsiderar a experiência e expertise do outro.
Para formar um argumento, no entanto, deve-se defender seus próprios
méritos, ou seja, deve-se saber por que a pessoa em posição de
autoridade tem aquela posição. No entanto, é claro, é perfeitamente
possível que a opinião de uma pessoa ou instituição de autoridade esteja
errada; assim sendo, a autoridade de que tal pessoa ou instituição goza
não tem nenhuma relação intrínseca com a veracidade e validade das suas
colocações.
16. Composição/Divisão
Você implica que uma parte de algo deve ser aplicada a todas, ou outras, partes daquilo.
Muitasvezes, quando algo é verdadeiro em parte, isso também se aplica ao
todo, mas é crucial saber se existe evidência de que este é mesmo o
caso.
Já que observamos consistência nas coisas, o nosso
pensamento pode se tornar enviesado de modo que presumimos consistência e
padrões onde eles não existem.
17. Nenhum escocês de verdade…
Você faz o que pode ser chamado de apelo à pureza como forma de rejeitar críticas relevantes ou falhas no seu argumento.
Nesta forma de argumentação falha, a crença de alguém é tornada
infalsificável porque, independente de quão convincente seja a evidência
apresentada, a pessoa simplesmente move a situação de modo que a
evidência supostamente não se aplique a um suposto “verdadeiro” exemplo.
Esse tipo de pós-racionalização é um modo de evitar críticas válidas ao
argumento de alguém.
18. Genética
Você julga algo como bom ou ruim tendo por base a sua origem.
Esta falácia evita o argumento ao levar o foco às origens de algo ou alguém. É similar à falácia ad hominem no sentido de que ela usa percepções negativas já existentes para fazer
com que o argumento de alguém pareça ruim, sem de fato dissecar a falta
de mérito do argumento em si.
19. Preto-ou-branco
Você apresenta dois estados alternativos como sendo as únicas possibilidades, quando de fato existem outras.
Também conhecida como falso dilema,
esta tática aparenta estar formando um argumento lógico, mas sob
análise mais cuidadosa fica evidente que há mais possibilidades além das
duas apresentadas. O pensamento binário da falácia
preto-ou-branco não leva em conta as múltiplas variáveis, condições e
contextos em que existiriam mais do que as duas possibilidades apresentadas. Ele molda o argumento de forma enganosa e obscurece o
debate racional e honesto.
20. Tornando a questão supostamente óbvia
Você apresenta um argumento circular no qual a conclusão foi incluída na premissa.
Este argumento logicamente incoerente geralmente surge em situações onde as
pessoas têm crenças bastante enraizadas, e por isso consideradas
verdades absolutas em suas mentes. Racionalizações circulares são ruins
principalmente porque não são muito boas.
21. Apelo à natureza
Você argumenta que só porque algo é “natural”, aquilo é válido, justificado, inevitável ou ideal.
Só porque algo é natural, não significa que é bom. Assassinato, por
exemplo, é bem natural, e mesmo assim a maioria de nós concorda que não é
lá uma coisa muito legal de você sair fazendo por aí. A sua
“naturalidade” não constitui nenhum tipo de justificativa.
22. Anedótica
Você usa uma experiência pessoal ou um exemplo isolado em vez de um argumento sólido ou prova convincente.
Geralmente é bem mais fácil para as pessoas simplesmente acreditarem no testemunho
de alguém do que entender dados complexos e variações dentro de um 
continuum.
Medidas quantitativas científicas são quase sempre mais precisas do que
percepções e experiências pessoais, mas a nossa inclinação é acreditar
naquilo que nos é tangível, e/ou na palavra de alguém em quem confiamos,
em vez de em uma realidade estatística mais “abstrata”.
23. O atirador do Texas
Você escolhe muito bem um padrão ou grupo específico de dados que sirva para
provar o seu argumento sem ser representativo do todo.
Esta falácia de “falsa causa” ganha seu nome partindo do exemplo de um
atirador disparando aleatoriamente contra a parede de um galpão, e, na
sequência, pintando um alvo ao redor da área com o maior número de
buracos, fazendo parecer que ele tem ótima pontaria.
Grupos específicos de dados como esse aparecem naturalmente, e de maneira
imprevisível, mas não necessariamente indicam que há uma relação causal.
24. Meio-termo
Você declara que uma posição central entre duas extremas deve ser a verdadeira.
Em muitos casos, a verdade realmente se encontra entre dois pontos
extremos, mas isso pode enviezar nosso pensamento: às vezes uma coisa
simplesmente não é verdadeira, e um meio termo dela também não é
verdadeiro. O meio do caminho entre uma verdade e uma mentira continua
sendo uma mentira.

  1. Exemplo:
    Depois de Felipe dizer que o governo deveria investir mais em saúde e
    educação, Jader respondeu dizendo estar surpreso que Felipe odeie tanto o
    Brasil, a ponto de querer deixar o nosso país completamente indefeso,
    sem verba militar.
  2. Exemplo:
    Apontando para um gráfico metido a besta, Rogério mostra como as
    temperaturas têm aumentado nos últimos séculos, ao mesmo tempo em que o
    número de piratas têm caído; sendo assim, obviamente, os piratas é que
    ajudavam a resfriar as águas, e o aquecimento global é uma farsa.
***
  1. Exemplo: Lucas
    não queria comer o seu prato de cérebro de ovelha com fígado picado, mas
    seu pai o lembrou de todas as crianças famintas de algum país de
    terceiro mundo que não tinham a sorte de ter qualquer tipo de comida.
***
  1. Exemplo:
    Percebendo que Amanda cometeu uma falácia ao defender que devemos comer
    alimentos saudáveis porque eles são populares, Alice resolveu ignorar a
    posição de Amanda por completo e comer Whopper Duplo com Queijo no
    Burger King todos os dias.
***
  1. Exemplo:
    Armando afirma que, se permitirmos casamentos entre pessoas do mesmo
    sexo, logo veremos pessoas se casando com seus pais, seus carros e seus
    macacos Bonobo de estimação.5.1)
    Exemplo 2: a explicação feita após o terceiro subtítulo – “O voto divergente do ministro Ricardo Lewandowski e a ladeira escorregadia” – deste texto sobre aborto. Vale a leitura.
***
  1. Exemplo:
    Depois de Salma apresentar de maneira eloquente e convincente uma
    possível reforma do sistema de cobrança do condomínio, Samuel pergunta
    aos presentes se eles deveriam mesmo acreditar em qualquer coisa dita
    por uma mulher que não é casada, já foi presa e, pra ser sincero, tem um
    cheiro meio estranho.
***
  1. Exemplo:
    Nicole identificou que Ana cometeu uma falácia lógica, mas, em vez de
    retificar o seu argumento, Ana acusou Nicole de ter cometido uma falácia
    anteriormente no debate.7.1)
    Exemplo 2: O
    político Aníbal Zé das Couves foi acusado pelo seu oponente de ter
    desviado dinheiro público na construção de um hospital. Aníbal não
    responde a acusação diretamente e devolve insinuando que seu oponente
    também já aprovou licitações irregulares em seu mandato.
***
  1. Exemplo: Henrique
    desenhou um peixe e um humano em um papel e, com desdém efusivo,
    perguntou a Ricardo se ele realmente pensava que nós somos babacas o
    bastante para acreditar que um peixe acabou evoluindo até a forma humana
    através de, sei lá, um monte de coisas aleatórias acontecendo com o
    passar dos tempos.
***
  1. Exemplo:
    Eduardo afirma ser vidente, mas quando as suas “habilidades” foram
    testadas em condições científicas apropriadas, elas magicamente
    desapareceram. Ele explicou, então, que elas só funcionam para quem tem
    fé nelas.
***
  1. Exemplo:
    Graça e Helena estavam interessadas no mesmo homem. Um dia, enquanto
    ele estava sentado próximo suficiente a elas para ouvir, Graça pergunta
    em tom de acusação: “como anda a sua rehabilitação das drogas, Helena?”
***
  1. Exemplo:
    Beltrano declara que uma chaleira está, nesse exato momento, orbitando o
    Sol entre a Terra e Marte e que, como ninguém pode provar que ele está
    errado, a sua afirmação é verdadeira.
***
  1. Exemplo: Em um
    julgamento, o advogado concorda que o crime foi desumano. Logo, tenta
    convencer o júri de que o seu cliente não é humano por ter cometido tal
    crime, e não deve ser julgado como um humano normal.
***
  1. Exemplo:
    Uma roleta deu número vermelho seis vezes em sequência, então Gregório
    teve quase certeza que o próximo número seria preto. Sofrendo uma forma
    econômica de seleção natural, ele logo foi separado de suas economias.
***
  1. Exemplo:
    Luciano, bêbado, apontou um dedo para Jão e perguntou como é que tantas
    pessoas acreditam em duendes se eles são só uma superstição antiga e
    boba. Jão, por sua vez, já havia tomado mais Guinness do que deveria e
    afirmou que já que tantas pessoas acreditam, a probabilidade de duendes
    de fato existirem é grande.
***
  1. Exemplo: Impossibilitado de
    defender a sua posição de que a teoria evolutiva “não é real”, Roberto
    diz que ele conhece pessoalmente um cientista que também questiona a
    Evolução e cita uma de suas famosas falas.15.1)
    Exemplo 2:
    Um professor de matemática se vê questionado de maneira insistente por
    um aluno especialmente chato. Lá pelas tantas, irritado após cometer um
    deslize em sua fala, o professor argumenta que tem mestrado
    pós-doutorado e isso é mais do que suficiente para o aluno confiar nele.
***
  1. Exemplo:
    Daniel era uma criança precoce com uma predileção por pensamento lógico.
    Ele sabia que átomos são invisíveis, então logo concluiu que ele, por
    ser feito de átomos, também era invisível. Nunca foi vitorioso em uma
    partida de esconde-esconde.
***

  1. Exemplo: Angus declara
    que escoceses não colocam açúcar no mingau, ao que Lachlan aponta que
    ele é um escocês e põe açúcar no mingau. Furioso, como um “escocês de
    verdade”, Angus berra que nenhum escocês de verdade põe açúcar no seu
    mingau.
***
  1. Exemplo:
    Acusado no Jornal Nacional de corrupção e aceitação de propina, o
    senador disse que devemos ter muito cuidado com o que ouvimos na mídia,
    já que todos sabemos como ela pode não ser confiável.
***
  1. Exemplo: Ao
    discursar sobre o seu plano para fundamentalmente prejudicar os direitos
    do cidadão, o Líder Supremo falou ao povo que ou eles estão do lado dos
    direitos do cidadão ou contra os direitos.
***
  1. Exemplo:
    A Palavra do Grande Zorbo é perfeita e infalível. Nós sabemos disso
    porque diz aqui no Grande e Infalível Livro das Melhores e Mais
    Infalíveis Coisas do Zorbo Que São Definitivamente Verdadeiras e Não
    Devem Nunca Serem Questionadas.20.1)
    Exemplo 2: O plano estratégico de marketing é o melhor possível, foi assinado pelo Diretor Bam-bam-bam.
  2. Exemplo:
    O curandeiro chegou ao vilarejo com a sua carroça cheia de remédios
    completamente naturais, incluindo garrafas de água pura muito especial.
    Ele disse que é natural as pessoas terem cuidado e desconfiarem de
    remédios “artificiais”, como antibióticos.
***
  1. Exemplo:
    José disse que o seu avô fumava, tipo, 30 cigarros por dia e viveu até
    os 97 anos — então não acredite nessas meta análises que você lê sobre
    estudos metodicamente corretos provando relações causais entre cigarros e
    expectativa de vida.
***
  1. Exemplo:
    Os fabricantes do bebida gaseificada Cocaçúcar apontam pesquisas que
    mostram que, dos cinco países onde a Cocaçúcar é mais vendida, três
    estão na lista dos dez países mais saudáveis do mundo, logo, Cocaçúcar é
    saudável.
***
  1. Exemplo: Mariana disse que
    a vacinação causou autismo em algumas crianças, mas o seu estudado
    amigo Calebe disse que essa afirmação já foi derrubada como falsa, com
    provas. Uma amiga em comum, a Alice, ofereceu um meio-termo: talvez as
    vacinas causem um pouco de autismo, mas não muito.
***



Dialética de Marx e Engels


Dialética: Marx e Engels
Por Roniel Sampaio Silva
Antes de tudo, devemos nos perguntar o que é dialética? Dialética, grosso modo, é a percepção de que a realidade não é constituída de uma essência imutável. Ela parte da premissa que há um constante movimento que transforma a realidade a partir das suas contradições.
A dialética remonta a uma construção histórica que começa na antiguidade clássica grega e se estende até os dias atuais. Em contraposição a dialética, há também na filosofia o idealismo, que parte da premissa que a realidade é formada de aspectos que são essencialmente imutáveis, ou ainda que a realidade se dirige a uma perfeição. Enquanto a dialética tinha como representante Sócrates e Heráclito, alguns dos representantes do idealismo era Parmênides e Platão. Com as transformações sociais que se seguiam, a dialética foi sufocada em favor da ascensão do idealismo em razão das classes dominantes enxergarem no idealismo um instrumento de manutenção de seus próprios privilégios na medida em que ficava mais fácil as pessoas aceitarem que o fato de quem são e o que fazem é sustentado na crença de uma essência imutável.
Na era moderna, com as transformações sociais e maior circulação de ideias e mercadorias a dialética passa a ser permanentemente revitalizada. A filosofia alemã de Kant e Hegel, mesmo sendo filosofias com grande apelo ao idealismo usam instrumentos do pensamento dialético e a revitaliza.
Foi com Hegel que a dialética passa a ter uma boa sustentação teórica. Para este autor, o entendimento da realidade parte das ideias para o concreto, que é imperfeito, para retornar as ideias numa dimensão idealizada que tende a perfeição. Assim, o homem tende a se constituir a partir do trabalho intelectual para fazer exercícios de mediação da realidade que vão fazendo movimentos de totalização da realidade. Ou seja, o exercício intelectual deve ser feita de modo a compreender as contradições da realidade e articulando tais contradições com as várias dimensões até ir compreendendo a visão do todo. Para Hegel a busca da verdade está no exercício das buscas de contradições, visando articular as várias dimensões da realidade, quanto mais conexões se fazem, maior entendimento da realidade se tem
Marx usa como referencia a dialética de Hegel, mas a inverte, passa a conceber o trabalho material como constituinte fundamental da historia e por conta disso, o exercício da reflexão deve fazer o movimento partindo do concreto, indo para o abstrato e retornando para novamente para o concreto. Foi a partir das contribuições de Feuerbach que o materialismo foi incorporado a teoria de Marx e as contradições da realidade foram analisadas com base nas condições materiais, dando um caráter empírico a dialética.
Neste sentido, a partir do método materialista histórico de Marx ele concluiu que as condições materiais criam contradições que criam classes sociais que se antagonizam entre si e dá dinâmica a história da humanidade.
Referência:
KONDER, Leandro. O que é dialética. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1988.

A fábula da Convivência


A fábula da convivência


Durante uma era glacial, muito remota, quando parte do globo terrestre esteve coberto por densas camadas de gelo, muitos animais não resistiram ao frio intenso e morreram, indefesos, por não se adaptarem às condições do clima hostil.
Foi então que uma grande manada de porcos-espinhos, numa tentativa de se proteger e sobreviver, começou a se unir, e juntar-se mais e mais.
Assim, cada um podia sentir o calor do corpo do outro.
E todos juntos, bem unidos, agasalhavam-se mutuamente, aqueciam-se enfrentando por mais tempo aquele forte inverno .
Porém, vida ingrata, os espinhos de cada um começaram a ferir os companheiros mais próximos, justamente aqueles que lhes forneciam mais calor, aquele calor vital, e afastaram-se feridos, magoados, por não suportarem mais tempo os espinhos dos seus companheiros.
Doíam muito...
Mas, essa não foi a melhor solução : afastados, separados, logo começaram a morrer congelados, os que não morreram voltaram a se aproximar, pouco a pouco, com jeito, com precauções, de tal forma que, unidos, cada qual conservava uma certa distância do outro, mínima, mas o suficiente para conviver, resistindo à longa era glacial.
Sobreviveram...
Arthur Schopenhauer

Análise da Música: A construção de Chico Buarque


Análise da música Construção – Chico Buarque sobre a realidade social
Música Construção – Chico Buarque
Por Roniel Sampaio Silva
As músicas carregam uma constelação de sentidos os quais podem ser explorados de diversas formas, inclusive, atrelando a letra de uma música a um determinado contexto social aparentemente sem conexão. Enxergar essas conexões é ver a realidade de outra maneira por meio da sociologia. Nessa canção é possível compreender melhor o conceito de consciência de classe de Karl Marx.
Aspectos conceituais fundamentais
Para Marx, as sociedades são formadas pela dialética das condições materiais e antagonismo de classes. Os indivíduos são agrupados em classes sociais de acordo com seu papel no processo produtivo. No capitalismo, o conjunto de indivíduos que detém o controle dos meios de produção faz parte da burguesia, enquanto os indivíduos que possuem apenas a força de trabalho pertence ao proletariado. A Luta de classes diz respeito aos meios que cada um utiliza para fazer valer seus interesses de classe. Para fazer valer tais interesses é necessário fundamentalmente ter consciência de classe que faz parte. Consciência de classe diz respeito a percepção sobre o seu papel no processo produtivo e a consciência do seu poder de articulação coletiva. Contrário a isso, temos o conceito de falsa consciência de classe e ideologia que é a distorção dessa percepção.
A canção
A música “Construção – de Chico Buarque” foi composta no começo da década de 1970 quando o cantor retorna para o Brasil depois de um longo período de exílio na Itália. A análise que esboço é que a “construção” diz respeito às mudanças das relações de trabalho no Brasil instaurado pelo Regime Militar. A canção é dividida em três partes. Cada uma das três partes da música diz respeito a uma rotina de um segmento da classe operária: 1- O trabalhador sem consciência de classe e que é extremamente explorado, 2- O trabalhador com consciência de classe, 3- A alta classe média e pequena burguesia.
A música construção revela a genialidade do compositor em mudar poucas palavras e dar novos sentidos as mesmas construções da letra. A canção mostra diferentes perspectivas de trabalhadores e suas rotinas. A música busca dar um sentido amplo a condição da classe operária naquele momento. Tanto a primeira parte quanto a segunda revelam um operário que é sacrificado para manutenção da “construção”, que poderia ser entendido como o sistema econômico e social o qual sustentava o regime. Nesta canção o trabalhador é visto de duas perspectivas e em todas elas é visto como um a gente de criação e manutenção da construção e ao mesmo tempo como um agente a ser combatido. Deste modo, a função de trabalhador cria circunstancialmente uma situação de risco para o trabalhador descrito na primeira e na segunda parte da música. A classe média com receio de se submeter aos mesmos riscos dos demais trabalhadores reproduzem a “construção” e agradecem a sua existência.
Primeira Parte (Trabalhadores sem consciência de classe e altamente precarizado)
A primeira parte refere-se à rotina do trabalhador sem consciência de classe e que ainda assim sofre com a precarização do trabalho característica do “milagre brasileiro”. No período da década de 1970 houve um considerável crescimento econômico às custas da ampliação da exploração da classe trabalhadora.
De acordo com a narrativa deste trecho da canção, o trabalhador não se enxerga como pertencente a uma classe social que tem uma trajetória histórica. Enxerga tão somente o presente, o “carpe diem”. “Amou daquela vez como se fosse a última / Beijou sua mulher como se fosse a última”. O distanciamento da consciência de classe a faz pensar apenas de forma individual e privada, pensar não como classe, mas como individuo e família, pensar nos seus filhos “E cada filho seu como se fosse o único”. Sua trajetória não faz ter certeza de que rumo está seguindo no curso da história (E atravessou a rua com seu passo tímido).
O trecho “Subiu na construção como se fosse máquina” diz respeito ao trabalho manual e material (“Quatro paredes sólidas”) exercido por este segmento da classe operária, apesar da situação de exploração tal trabalhador apenas lamenta e não transforma seu lamento (lágrima) em contestação. Seguindo a narrativa, a estrofe seguinte mostra como o seu salário mal satisfaz suas necessidades de existência (comida, descanso, lazer).
O trabalhador morre tragicamente no ambiente de trabalho e sua foça de trabalho é anulada de modo a não mais favorecer o sistema (atrapalhando o tráfego).
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão, atrapalhando o tráfego
Segunda Parte (Trabalhadores contestadores com consciência de classe)
A Segunda parte diz respeito a um trabalhador com consciência de classe e que se organiza para combater o regime, em especial os trabalhadores da Guerrilha do Araguaia. Assim como o operário braçal corre um perigo não pela sua situação de trabalho, mas pelo seu posicionamento em relação ao regime. O “filho pródigo” descrito no verso faz alusão as filhos que precisavam sair da casa dos pais para se esconder dos agentes do regime, enquanto o “passo bêbado” faz referência a caminhar titubeante de um fugitivo das autoridades.
O fato deste trabalhador ter mais esclarecimento a utopia idealizada para o país não é preliminarmente um projeto material e sim uma idealização, razão pela qual a segunda estrofe abaixo faz alusão a um projeto imaginário de país cujo seu olhar está sempre atento ao “tráfego”, munido de um “desenho lógico”, um projeto de país a partir do sonho de ter o proletariado como real titular do poder. Na referência “olhos embotados de cimento e tráfego” faz alusão à materialidade das coisas (cimento) e à análise dialética da conjuntura política (tráfego).
Comer, descansar, berber, são necessidades materiais de todo e qualquer trabalhador independentemente, o que faz diferenciá-lo é sua consciência de classe. A morte do trabalhador dotado de consciência de classe muitas vezes é uma consequência da sua contestação do próprio capital. A expressão “passeio náufrago” pode ser entendida como os guerrilheiros que foram mortos às margens do Rio Araguaia os quais morreram na “contramão atrapalhando o público”, os interesses do capital travestidos de público endossados pelo comitê de negócios da burguesia, o Estado.
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Terceira Parte (A alta classe média e pequena burguesia)
Já na terceira parte da canção faz alusão a uma classe média improdutiva que não produz a realidade material e que apenas ajuda a reproduzir ideologicamente os privilégios da burguesia. Este trecho “Ergueu no patamar quatro paredes flácidas” pode ser associado a ideologia. . Como nem participa do processo de produção da construção, apenas na reprodução, sua vida ou sua morte não faz diferença “Morreu na contramão atrapalhando o sábado”. A classe média tem uma grande ojeriza e medo de ter uma condição material parecida com a dos demais operários, por isso é muito grata (“Deus lhe pague”) à ação do Estado que lhe poupa de parte das atrocidades proferidas aos outros trabalhadores 1-“Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair” (trabalhadores braçais vítimas de acidente de trabalho), 2-“Pela fumaça e a desgraça que a gente tem que tossir” (trabalhadores contestadores)
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado
Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague
A música construção conta a trajetória diária da classe trabalhadora e como se dá sua relação com o cotidiano, com a vida e com a morte. Cada um dos segmentos do proletariado tem uma relação diferenciada com o capital, o risco, as recompensas e os esforços. O risco e a diferença que cada um faz parte em relação a produção e reprodução do capital é diferente. Em suma, nossa vida material é especialmente limitada tendo em vista o longo processo histórico de luta de classes. Por isso que a narrativa é finalizada com a morte.
Referências
Johnson, A. G. Dicionário de sociologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1997.

Amor segundo Aristóteles


Aristóteles

Hoje falaremos sobre Philia, ou o amor de amigo, que já descrevemos em outras postagens.
Em Ética a Nicômaco, Aristóteles resolveu categorizar os tipos de amizade, e concluiu que seriam três:

1. Pelo prazer mútuo: O amor pelo que é agradável

É aquela amizade que só existe nos momentos de festa e curtição. Nesse tipo de amizade, as pessoas estão interessadas na busca pelo próprio prazer que é possibilitado pela companhia da outra pessoa. Uma vez que não há mais prazer, a amizade se desfaz. 
2. Por benefício mútuo: O amor pelo que é útil.

Semelhante à anterior, é uma amizade que só dura enquanto houver a perspectiva de se ter algum ganho. É uma relação estratégica para se conseguir alguma forma de vantagem através da outra pessoa. 
Um ponto curioso dessas duas primeiras formas de amizade é que na verdade nossa relação não são com as pessoas em si, mas com os ganhos que elas nos proporcionam. Tanto que essas amizades se desfazem, logo que não se mostrem mais vantajosas.

3. Pela admiração mútua: O amor pelo que é bom

Imagina uma pessoa que não é você, mas você se importa tanto com ela, quanto se importa com vc msm. Para Aristóteles, esse é o nível mais elevado de amizade, pois diferente das outras, não é uma relação só para os bons momentos ou pelos possíveis ganhos. É quando queremos fazer o bem ao outro, sem que seja solicitado, ou que ganhemos crédito por isso.
Não é a toa que amigos de verdade, são raros. 
A amizade verdadeira é exclusiva dos homens virtuosos, pois os “maus” só conseguem se relacionar pelo prazer ou pela utilidade. Só o homem verdadeiramente bom é capaz de desejar o bem para si e para seu amigo em uma relação permanente.

E ah, antes que eu me esqueça, desejar o bem não exclui o prazer e o benefício que uma amizade pode proporcionar, a diferença é que a amizade verdadeira não se limita a isso.

Outro detalhe importante é q Philia demanda por reciprocidade, n basta querer o bem do outro, se ele nao te quer bem.

Aristóteles coloca que a amizade é algo necessário para a felicidade humana, tanto que como diz: "Ninguém escolheria viver sem amigos mesmo se tiver todos os outros bens"

Conteúdo para estudo - os Filósofos Pré Socráticos


FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA – Resumo Geral
A filosofia grega, é sistemática e elegante: ela divide o período antes de Sócrates em três fases, com Parmênides no centro, e caracteriza cada fase por uma abordagem específica a um problema comum. Os filósofos não seguiram um emaranhado de projetos diferentes, mas se ocuparam de uma única busca por uma resposta em questão.
Essa narrativa fala de progresso. Como historiadores de filosofia, gostamos de explicar por que alguma coisa aconteceu depois da outra e precisamos atribuir a certos acontecimentos a função de causadores de uma mudança.
Vemos que os pensadores que sucederam Parmênides tomaram um rumo diferente dos que o antecederam e sugere que, ao aprender a lidar com as dificuldades levantadas por Parmênides, haviam descoberto algumas verdades importantes e aprimorado seus métodos de investigação.
Duas características que pensamos ser particularmente essenciais à filosofia são: primeiro, a disposição de debater abertamente com aqueles que discordam, reconhecendo que há outros pontos de vista com os quais é preciso lidar; e segundo, a necessidade de argumentar em termos que o adversário possa compreender e de respeitar os bons argumentos do outro lado. Podemos nos convencer de que ambas as coisas estavam acontecendo.
Os pensadores podem ser primitivos, e suas questões podem parecer muito estranhas, mas eles estavam, aparentemente, discordando uns dos outros – desafiando e respondendo, um de cada vez, num debate em câmera lenta.
Logo que Tales ( Séc. VII e VI a.C. ), em Mileto, propôs a ideia de que a água é a origem de tudo, os outros sentiram a necessidade de questionar isso: ‘Não da água’, disse um, ‘e sim do ar’; ‘Não do ar’, afirmou outro, ‘e sim, da terra’; ‘De nenhum desses’, disse um terceiro, ‘mas de alguma outra coisa que na verdade não é nada em particular’. Todos queriam explicar, da melhor forma, como o mundo que hoje conhecemos pôde ter se originado de um único tipo de matéria indiferenciada.
[Anaximandro ( Séc. VI a.C. ) acreditava que são coisas indefinidas; Anaxímenes ( Séc. VI a.C. ) acreditava que é o ár; Heráclito ( Séc. VI e V a.C. ) acreditava que é o fogo.]
Essa discussão continuou por algum tempo, com cada colaborador acrescentando uma teoria plausível para explicar como o mundo pode ter assumido a aparência que hoje tem, supondo que sua própria ideia sobre a origem fosse verdadeira.
Algum tempo depois, contudo, por volta da virada do século VI a.C. para o seguinte, sobreveio uma crise. ‘Esse tipo de teoria é uma impossibilidade lógica!’, disse um homem chamado Parmênides, que viveu na região grega do sul da Itália. ‘Uma coisa não pode se transformar em muitas coisas: o um é um e completamente solitário, e para sempre será assim, ou melhor, não será, já que não pode haver tempo futuro, e tampouco passado!’ Bom, todos ficaram perplexos com o arrojado argumento de Parmênides, que ele corroborava com uma impressionante série de provas meticulosas e detalhadas. Se nada pode mudar, e se o que havia antes não pode transformar-se em algo novo, como explicar as estruturas complexas e as diferentes coisas que encontramos à nossa volta? Então, todos resolveram tentar solucionar esse problema. Todos, com exceção de alguns fiéis pupilos de Parmênides.
Então, uma nova torrente de teorias fluiu, advinda dos pensadores do início do século V a.C., a maioria delas contestando Parmênides. ‘Talvez’, eles arriscaram dizer, ‘Parmênides esteja correto ao afirmar que nada se transforma de fato; mas não seria possível que o mundo fosse complexo desde o início? Suponhamos que tudo o que existe hoje já existisse desde o princípio: muitas coisas naquele tempo, muitas coisas agora. Assim, Parmênides pode estar errado ao dizer que sempre houve apenas uma única coisa.’
E então, eles começaram a formular explicações de como o mundo pode ter se originado na forma de muitos tipos de matéria: um disse que havia quatro elementos, outro afirmou que os elementos eram de número infinito, e outro ainda que havia partículas atômicas (indivisíveis) de matéria, pequenas demais para que pudéssemos enxergar a olho nú; mas o que todos sugeriram em uníssono foi que, mesmo que as partículas microscópicas continuassem sempre as mesmas, ainda assim, modificando sua disposição, se poderia chegar a combinações e estruturas que assumiriam muitas formas diferentes. Desse modo, podemos explicar como as estruturas observáveis do mundo estão sempre mudando de maneiras que parecem plausíveis, mesmo que se acredite em Parmênides.
[Parmênides ( Séc. VI e V a.C. ) , Zenão ( Séc. V e IV a.C. ) e Melisso ( Séc. V a.C. ) acreditavam no Um; Empédocles ( Séc. V a.C. ) acreditava na terra, ar, fogo e água e também unia o conceito de monismo com o de pluralismo considerando-os fases de um ciclo infinito, em que as coisas passam de uma só para muitas, e depois voltam a ser uma, consecutivamente; Anaxágoras ( Séc. V a.C ) acreditava em numerosos componentes infinitamente divisíveis; Léucipo e Demócrito ( Séc. V e IV a.C. ) acreditavam em numerosos componentes indivisíveis e o vazio.]
Então, depois de dois séculos de discussões sobre a natureza do mundo, eles deixaram suas dificuldades de lado e o período da primeira cosmologia grega chegou ao fim. Chegara o momento propício para um novo tipo de questão, desta vez sobre a vida humana e os valores morais. Entram em cena Sócrates e os sofistas.