-
1. EspantalhoVocê desvirtuou um argumento para torná-lo mais fácil de atacar.Ao exagerar, desvirtuar ou simplesmente inventar um argumento de alguém,
fica bem mais fácil apresentar a sua posição como razoável ou válida.
Este tipo de desonestidade não apenas prejudica o discurso racional,
como também prejudica a própria posição de alguém que o usa, por colocar
em questão a sua credibilidade – se você está disposto a desvirtuar
negativamente o argumento do seu oponente, será que você também não
desvirtuaria os seus positivamente?2. Causa FalsaVocê supôs que uma relação real ou percebida entre duas coisas significa que uma é a causa da outra.Uma variação dessa falácia é a “cum hoc ergo propter hoc”
(com isto, logo por causa disto), na qual alguém supõe que, pelo fato
de duas coisas estarem acontecendo juntas, uma é a causa da outra. Este
erro consiste em ignorar a possibilidade de que possa haver uma causa em
comum para ambas, ou, como mostrado no exemplo abaixo, que as duas
coisas em questão não tenham absolutamente nenhuma relação de causa, e a
sua aparente conexão é só uma coincidência.Outra variação comum é a falácia “post hoc ergo propter hoc”
(depois disto, logo por causa disto), na qual uma relação causal é
presumida porque uma coisa acontece antes de outra coisa, logo, a
segunda coisa só pode ter sido causada pela primeira.
3. Apelo à emoçãoVocê tentou manipular uma resposta emocional no lugar de um argumento válido ou convincente.Apelos à emoção são relacionados a medo, inveja, ódio, pena, orgulho, entre outros.É importante dizer que às vezes um argumento logicamente coerente pode
inspirar emoção, ou ter um aspecto emocional, mas o problema e a falácia
acontecem quando a emoção é usada no lugar de um argumento lógico. Ou,
para tornar menos claro o fato de que não existe nenhuma relação
racional e convincente para justificar a posição de alguém.Exceto
os sociopatas, todos são afetados pela emoção, por isso apelos à emoção
são uma tática de argumentação muito comum e eficiente. Mas eles são
falhos e desonestos, com tendência a deixar o oponente de alguém
justificadamente emocional.
4. A falácia da faláciaSupor que uma afirmação está necessariamente errada só porque ela não foi bem construída ou porque uma falácia foi cometida.Há poucas coisas mais frustrantes do que ver alguém argumentar de maneira
fraca alguma posição. Na maioria dos casos um debate é vencido pelo
melhor debatedor, e não necessariamente pela pessoa com a posição mais
correta. Se formos ser honestos e racionais, temos que ter em mente que
só porque alguém cometeu um erro na sua defesa do argumento, isso não
necessariamente significa que o argumento em si esteja errado.
5. Ladeira EscorregadiaVocê faz parecer que o fato de permitirmos que aconteça A fará com que aconteça Z, e por isso não podemos permitir A.O problema com essa linha de raciocínio é que ela evita que se lide com a
questão real, jogando a atenção em hipóteses extremas. Como não se
apresenta nenhuma prova de que tais hipóteses extremas realmente
ocorrerão, esta falácia toma a forma de um apelo à emoção do medo.6. Ad hominemVocê ataca o caráter ou traços pessoais do seu oponente em vez de refutar o argumento dele.Ataques ad hominem podem assumir a forma de golpes pessoais e diretos contra
alguém, ou mais sutilmente jogar dúvida no seu caráter ou atributos
pessoais. O resultado desejado de um ataque ad hominem é prejudicar o oponente de alguém sem precisar de fato se engajar no argumento dele ou apresentar um próprio.7. Tu quoque (você também)Você evitar ter que se engajar em críticas virando as próprias críticas contra o acusador – você responde críticas com críticas.Esta falácia, cuja tradução do latim é literalmente “você também”, é
geralmente empregada como um mecanismo de defesa, por tirar a atenção do
acusado ter que se defender e mudar o foco para o acusador.A implicação é que, se o oponente de alguém também faz aquilo de que acusa
o outro, ele é um hipócrita. Independente da veracidade da
contra-acusação, o fato é que esta é efetivamente uma tática para evitar
ter que reconhecer e responder a uma acusação contida em um argumento –
ao devolver ao acusador, o acusado não precisa responder à acusação.8. Incredulidade pessoalVocê considera algo difícil de entender, ou não sabe como funciona, por isso você dá a entender que não seja verdade.Assuntos complexos como evolução biológica através de seleção natural exigem
alguma medida de entendimento sobre como elas funcionam antes que alguém
possa entendê-los adequadamente; esta falácia é geralmente usada no
lugar desse entendimento.9. Alegação especialVocê altera as regras ou abre uma exceção quando sua afirmação é exposta como falsa.Humanos são criaturas engraçadas, com uma aversão boba a estarem errados.Em vez de aproveitar os benefícios de poder mudar de ideia graças a um
novo entendimento, muitos inventarão modos de se agarrar a velhas
crenças. Uma das maneiras mais comuns que as pessoas fazem isso é
pós-racionalizar um motivo explicando o porque aquilo no qual elas
acreditavam ser verdade deve continuar sendo verdade.É geralmente
bem fácil encontrar um motivo para acreditar em algo que nos favorece, e
é necessária uma boa dose de integridade e honestidade genuína consigo
mesmo para examinar nossas próprias crenças e motivações sem cair na
armadilha da auto-justificação.10. Pergunta carregadaVocê faz uma pergunta que tem uma afirmação embutida, de modo que ela não pode ser respondida sem uma certa admissão de culpa.Falácias desse tipo são particularmente eficientes em descarrilar discussões
racionais, graças à sua natureza inflamatória – o receptor da pergunta
carregada é compelido a se justificar e pode parecer abalado ou na
defensiva. Esta falácia não apenas é um apelo à emoção, mas também
reformata a discussão de forma enganosa.11. Ônus da provaVocê espera que outra pessoa prove que você está errado, em vez de você mesmo provar que está certo.O ônus (obrigação) da prova está sempre com quem faz uma afirmação, nunca
com quem refuta a afirmação. A impossibilidade, ou falta de intenção,
de provar errada uma afirmação não a torna válida, nem dá a ela nenhuma
credibilidade.No entanto, é importante estabelecer que nunca
podemos ter certeza de qualquer coisa, portanto devemos valorizar cada
afirmação de acordo com as provas disponíveis. Tirar a importância de um
argumento só porque ele apresenta um fato que não foi provado sem
sombra de dúvidas também é um argumento falacioso.12. AmbiguidadeVocê usa duplo sentido ou linguagem ambígua para apresentar a sua verdade de modo enganoso.Políticos frequentemente são culpados de usar ambiguidade em seus discursos, para
depois, se forem questionados, poderem dizer que não estavam
tecnicamente mentindo. Isso é qualificado como uma falácia, pois é
intrinsecamente enganoso.
13. Falácia do apostadorVocê diz que “sequências” acontecem em fenômenos estatisticamente
independentes, como rolagem de dados ou números que caem em uma roleta.Esta falácia de aceitação comum é provavelmente o motivo da criação da
grande e luminosa cidade no meio de um deserto americano chamada Las Vegas.Apesar da probabilidade geral de uma grande sequência do
resultado desejado ser realmente baixa, cada lance do dado é, em si
mesmo, inteiramente independente do anterior. Apesar de haver uma chance
baixíssima de um cara-ou-coroa dar cara 20 vezes seguidas, a chance de
dar cara em cada uma das vezes é e sempre será de 50%, independente de
todos os lances anteriores ou futuros.14. Ad populumVocê apela para a popularidade de um fato, no sentido de que muitas pessoas
fazem/concordam com aquilo, como uma tentativa de validação dele.A falha nesse argumento é que a popularidade de uma ideia não tem
absolutamente nenhuma relação com a sua validade. Se houvesse, a Terra
teria se feito plana por muitos séculos, pelo simples fato de que todos
acreditavam que ela era assim.15. Apelo à autoridadeVocê usa a sua posição como figura ou instituição de autoridade no lugar de um argumento válido. (A popular “carteirada”.)É importante mencionar que, no que diz respeito a esta falácia, as
autoridades de cada campo podem muito bem ter argumentos válidos, e que
não se deve desconsiderar a experiência e expertise do outro.Para formar um argumento, no entanto, deve-se defender seus próprios
méritos, ou seja, deve-se saber por que a pessoa em posição de
autoridade tem aquela posição. No entanto, é claro, é perfeitamente
possível que a opinião de uma pessoa ou instituição de autoridade esteja
errada; assim sendo, a autoridade de que tal pessoa ou instituição goza
não tem nenhuma relação intrínseca com a veracidade e validade das suas
colocações.16. Composição/DivisãoVocê implica que uma parte de algo deve ser aplicada a todas, ou outras, partes daquilo.Muitasvezes, quando algo é verdadeiro em parte, isso também se aplica ao
todo, mas é crucial saber se existe evidência de que este é mesmo o
caso.Já que observamos consistência nas coisas, o nosso
pensamento pode se tornar enviesado de modo que presumimos consistência e
padrões onde eles não existem.17. Nenhum escocês de verdade…Você faz o que pode ser chamado de apelo à pureza como forma de rejeitar críticas relevantes ou falhas no seu argumento.Nesta forma de argumentação falha, a crença de alguém é tornada
infalsificável porque, independente de quão convincente seja a evidência
apresentada, a pessoa simplesmente move a situação de modo que a
evidência supostamente não se aplique a um suposto “verdadeiro” exemplo.
Esse tipo de pós-racionalização é um modo de evitar críticas válidas ao
argumento de alguém.18. GenéticaVocê julga algo como bom ou ruim tendo por base a sua origem.Esta falácia evita o argumento ao levar o foco às origens de algo ou alguém. É similar à falácia ad hominem no sentido de que ela usa percepções negativas já existentes para fazer
com que o argumento de alguém pareça ruim, sem de fato dissecar a falta
de mérito do argumento em si.19. Preto-ou-brancoVocê apresenta dois estados alternativos como sendo as únicas possibilidades, quando de fato existem outras.Também conhecida como falso dilema,
esta tática aparenta estar formando um argumento lógico, mas sob
análise mais cuidadosa fica evidente que há mais possibilidades além das
duas apresentadas. O pensamento binário da falácia
preto-ou-branco não leva em conta as múltiplas variáveis, condições e
contextos em que existiriam mais do que as duas possibilidades apresentadas. Ele molda o argumento de forma enganosa e obscurece o
debate racional e honesto.20. Tornando a questão supostamente óbviaVocê apresenta um argumento circular no qual a conclusão foi incluída na premissa.Este argumento logicamente incoerente geralmente surge em situações onde as
pessoas têm crenças bastante enraizadas, e por isso consideradas
verdades absolutas em suas mentes. Racionalizações circulares são ruins
principalmente porque não são muito boas.21. Apelo à naturezaVocê argumenta que só porque algo é “natural”, aquilo é válido, justificado, inevitável ou ideal.Só porque algo é natural, não significa que é bom. Assassinato, por
exemplo, é bem natural, e mesmo assim a maioria de nós concorda que não é
lá uma coisa muito legal de você sair fazendo por aí. A sua
“naturalidade” não constitui nenhum tipo de justificativa.22. AnedóticaVocê usa uma experiência pessoal ou um exemplo isolado em vez de um argumento sólido ou prova convincente.Geralmente é bem mais fácil para as pessoas simplesmente acreditarem no testemunho
de alguém do que entender dados complexos e variações dentro de um continuum.Medidas quantitativas científicas são quase sempre mais precisas do que
percepções e experiências pessoais, mas a nossa inclinação é acreditar
naquilo que nos é tangível, e/ou na palavra de alguém em quem confiamos,
em vez de em uma realidade estatística mais “abstrata”.23. O atirador do TexasVocê escolhe muito bem um padrão ou grupo específico de dados que sirva para
provar o seu argumento sem ser representativo do todo.Esta falácia de “falsa causa” ganha seu nome partindo do exemplo de um
atirador disparando aleatoriamente contra a parede de um galpão, e, na
sequência, pintando um alvo ao redor da área com o maior número de
buracos, fazendo parecer que ele tem ótima pontaria.Grupos específicos de dados como esse aparecem naturalmente, e de maneira
imprevisível, mas não necessariamente indicam que há uma relação causal.24. Meio-termoVocê declara que uma posição central entre duas extremas deve ser a verdadeira.Em muitos casos, a verdade realmente se encontra entre dois pontos
extremos, mas isso pode enviezar nosso pensamento: às vezes uma coisa
simplesmente não é verdadeira, e um meio termo dela também não é
verdadeiro. O meio do caminho entre uma verdade e uma mentira continua
sendo uma mentira.
- Exemplo:
Depois de Felipe dizer que o governo deveria investir mais em saúde e
educação, Jader respondeu dizendo estar surpreso que Felipe odeie tanto o
Brasil, a ponto de querer deixar o nosso país completamente indefeso,
sem verba militar. - Exemplo:
Apontando para um gráfico metido a besta, Rogério mostra como as
temperaturas têm aumentado nos últimos séculos, ao mesmo tempo em que o
número de piratas têm caído; sendo assim, obviamente, os piratas é que
ajudavam a resfriar as águas, e o aquecimento global é uma farsa.
***- Exemplo: Lucas
não queria comer o seu prato de cérebro de ovelha com fígado picado, mas
seu pai o lembrou de todas as crianças famintas de algum país de
terceiro mundo que não tinham a sorte de ter qualquer tipo de comida.
***- Exemplo:
Percebendo que Amanda cometeu uma falácia ao defender que devemos comer
alimentos saudáveis porque eles são populares, Alice resolveu ignorar a
posição de Amanda por completo e comer Whopper Duplo com Queijo no
Burger King todos os dias.
***- Exemplo:
Armando afirma que, se permitirmos casamentos entre pessoas do mesmo
sexo, logo veremos pessoas se casando com seus pais, seus carros e seus
macacos Bonobo de estimação.5.1) Exemplo 2: a explicação feita após o terceiro subtítulo – “O voto divergente do ministro Ricardo Lewandowski e a ladeira escorregadia” – deste texto sobre aborto. Vale a leitura.
***- Exemplo:
Depois de Salma apresentar de maneira eloquente e convincente uma
possível reforma do sistema de cobrança do condomínio, Samuel pergunta
aos presentes se eles deveriam mesmo acreditar em qualquer coisa dita
por uma mulher que não é casada, já foi presa e, pra ser sincero, tem um
cheiro meio estranho.
***- Exemplo:
Nicole identificou que Ana cometeu uma falácia lógica, mas, em vez de
retificar o seu argumento, Ana acusou Nicole de ter cometido uma falácia
anteriormente no debate.7.1) Exemplo 2: O
político Aníbal Zé das Couves foi acusado pelo seu oponente de ter
desviado dinheiro público na construção de um hospital. Aníbal não
responde a acusação diretamente e devolve insinuando que seu oponente
também já aprovou licitações irregulares em seu mandato.
***- Exemplo: Henrique
desenhou um peixe e um humano em um papel e, com desdém efusivo,
perguntou a Ricardo se ele realmente pensava que nós somos babacas o
bastante para acreditar que um peixe acabou evoluindo até a forma humana
através de, sei lá, um monte de coisas aleatórias acontecendo com o
passar dos tempos.
***- Exemplo:
Eduardo afirma ser vidente, mas quando as suas “habilidades” foram
testadas em condições científicas apropriadas, elas magicamente
desapareceram. Ele explicou, então, que elas só funcionam para quem tem
fé nelas.
***- Exemplo:
Graça e Helena estavam interessadas no mesmo homem. Um dia, enquanto
ele estava sentado próximo suficiente a elas para ouvir, Graça pergunta
em tom de acusação: “como anda a sua rehabilitação das drogas, Helena?”
***- Exemplo:
Beltrano declara que uma chaleira está, nesse exato momento, orbitando o
Sol entre a Terra e Marte e que, como ninguém pode provar que ele está
errado, a sua afirmação é verdadeira.
***- Exemplo: Em um
julgamento, o advogado concorda que o crime foi desumano. Logo, tenta
convencer o júri de que o seu cliente não é humano por ter cometido tal
crime, e não deve ser julgado como um humano normal.
***- Exemplo:
Uma roleta deu número vermelho seis vezes em sequência, então Gregório
teve quase certeza que o próximo número seria preto. Sofrendo uma forma
econômica de seleção natural, ele logo foi separado de suas economias.
***- Exemplo:
Luciano, bêbado, apontou um dedo para Jão e perguntou como é que tantas
pessoas acreditam em duendes se eles são só uma superstição antiga e
boba. Jão, por sua vez, já havia tomado mais Guinness do que deveria e
afirmou que já que tantas pessoas acreditam, a probabilidade de duendes
de fato existirem é grande.
***- Exemplo: Impossibilitado de
defender a sua posição de que a teoria evolutiva “não é real”, Roberto
diz que ele conhece pessoalmente um cientista que também questiona a
Evolução e cita uma de suas famosas falas.15.1) Exemplo 2:
Um professor de matemática se vê questionado de maneira insistente por
um aluno especialmente chato. Lá pelas tantas, irritado após cometer um
deslize em sua fala, o professor argumenta que tem mestrado
pós-doutorado e isso é mais do que suficiente para o aluno confiar nele.
***- Exemplo:
Daniel era uma criança precoce com uma predileção por pensamento lógico.
Ele sabia que átomos são invisíveis, então logo concluiu que ele, por
ser feito de átomos, também era invisível. Nunca foi vitorioso em uma
partida de esconde-esconde.
***
- Exemplo: Angus declara
que escoceses não colocam açúcar no mingau, ao que Lachlan aponta que
ele é um escocês e põe açúcar no mingau. Furioso, como um “escocês de
verdade”, Angus berra que nenhum escocês de verdade põe açúcar no seu
mingau.
***- Exemplo:
Acusado no Jornal Nacional de corrupção e aceitação de propina, o
senador disse que devemos ter muito cuidado com o que ouvimos na mídia,
já que todos sabemos como ela pode não ser confiável.
***- Exemplo: Ao
discursar sobre o seu plano para fundamentalmente prejudicar os direitos
do cidadão, o Líder Supremo falou ao povo que ou eles estão do lado dos
direitos do cidadão ou contra os direitos.
***- Exemplo:
A Palavra do Grande Zorbo é perfeita e infalível. Nós sabemos disso
porque diz aqui no Grande e Infalível Livro das Melhores e Mais
Infalíveis Coisas do Zorbo Que São Definitivamente Verdadeiras e Não
Devem Nunca Serem Questionadas.20.1) Exemplo 2: O plano estratégico de marketing é o melhor possível, foi assinado pelo Diretor Bam-bam-bam. - Exemplo:
O curandeiro chegou ao vilarejo com a sua carroça cheia de remédios
completamente naturais, incluindo garrafas de água pura muito especial.
Ele disse que é natural as pessoas terem cuidado e desconfiarem de
remédios “artificiais”, como antibióticos.
***- Exemplo:
José disse que o seu avô fumava, tipo, 30 cigarros por dia e viveu até
os 97 anos — então não acredite nessas meta análises que você lê sobre
estudos metodicamente corretos provando relações causais entre cigarros e
expectativa de vida.
***- Exemplo:
Os fabricantes do bebida gaseificada Cocaçúcar apontam pesquisas que
mostram que, dos cinco países onde a Cocaçúcar é mais vendida, três
estão na lista dos dez países mais saudáveis do mundo, logo, Cocaçúcar é
saudável.
***- Exemplo: Mariana disse que
a vacinação causou autismo em algumas crianças, mas o seu estudado
amigo Calebe disse que essa afirmação já foi derrubada como falsa, com
provas. Uma amiga em comum, a Alice, ofereceu um meio-termo: talvez as
vacinas causem um pouco de autismo, mas não muito.
***
segunda-feira, 16 de setembro de 2019
FALÁCIAS
Dialética de Marx e Engels
Dialética:
Marx e Engels
Por
Roniel Sampaio Silva
Antes
de tudo, devemos nos perguntar o que é dialética? Dialética,
grosso modo, é a percepção de que a realidade não é constituída
de uma essência imutável. Ela parte da premissa que há um
constante movimento que transforma a realidade a partir das suas
contradições.
A
dialética remonta a uma construção histórica que começa na
antiguidade clássica grega e se estende até os dias atuais. Em
contraposição a dialética, há também na filosofia o idealismo,
que parte da premissa que a realidade é formada de aspectos que são
essencialmente imutáveis, ou ainda que a realidade se dirige a uma
perfeição. Enquanto a dialética tinha como representante Sócrates
e Heráclito, alguns dos representantes do idealismo era Parmênides
e Platão. Com as transformações sociais que se seguiam, a
dialética foi sufocada em favor da ascensão do idealismo em razão
das classes dominantes enxergarem no idealismo um instrumento de
manutenção de seus próprios privilégios na medida em que ficava
mais fácil as pessoas aceitarem que o fato de quem são e o que
fazem é sustentado na crença de uma essência imutável.
Na
era moderna, com as transformações sociais e maior circulação de
ideias e mercadorias a dialética passa a ser permanentemente
revitalizada. A filosofia alemã de Kant e Hegel, mesmo sendo
filosofias com grande apelo ao idealismo usam instrumentos do
pensamento dialético e a revitaliza.
Foi
com Hegel que a dialética passa a ter uma boa sustentação teórica.
Para este autor, o entendimento da realidade parte das ideias para o
concreto, que é imperfeito, para retornar as ideias numa dimensão
idealizada que tende a perfeição. Assim, o homem tende a se
constituir a partir do trabalho intelectual para fazer exercícios de
mediação da realidade que vão fazendo movimentos de totalização
da realidade. Ou seja, o exercício intelectual deve ser feita de
modo a compreender as contradições da realidade e articulando tais
contradições com as várias dimensões até ir compreendendo a
visão do todo. Para Hegel a busca da verdade está no exercício das
buscas de contradições, visando articular as várias dimensões da
realidade, quanto mais conexões se fazem, maior entendimento da
realidade se tem
Marx
usa como referencia a dialética de Hegel, mas a inverte, passa a
conceber o trabalho material como constituinte fundamental da
historia e por conta disso, o exercício da reflexão deve fazer o
movimento partindo do concreto, indo para o abstrato e retornando
para novamente para o concreto. Foi a partir das contribuições de
Feuerbach que o materialismo foi incorporado a teoria de Marx e as
contradições da realidade foram analisadas com base nas condições
materiais, dando um caráter empírico a dialética.
Neste
sentido, a partir do método materialista histórico de Marx ele
concluiu que as condições materiais criam contradições que criam
classes sociais que se antagonizam entre si e dá dinâmica a
história da humanidade.
Referência:
KONDER,
Leandro. O que é dialética. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1988.
A fábula da Convivência
A
fábula da convivência
Durante
uma era glacial, muito remota, quando parte do globo terrestre esteve
coberto por densas camadas de gelo, muitos animais não resistiram ao
frio intenso e morreram, indefesos, por não se adaptarem às
condições do clima hostil.
Foi
então que uma grande manada de porcos-espinhos, numa tentativa de se
proteger e sobreviver, começou a se unir, e juntar-se mais e mais.
Assim,
cada um podia sentir o calor do corpo do outro.
E
todos juntos, bem unidos, agasalhavam-se mutuamente, aqueciam-se
enfrentando por mais tempo aquele forte inverno .
Porém,
vida ingrata, os espinhos de cada um começaram a ferir os
companheiros mais próximos, justamente aqueles que lhes forneciam
mais calor, aquele calor vital, e afastaram-se feridos, magoados, por
não suportarem mais tempo os espinhos dos seus companheiros.
Doíam
muito...
Mas,
essa não foi a melhor solução : afastados, separados, logo
começaram a morrer congelados, os que não morreram voltaram a se
aproximar, pouco a pouco, com jeito, com precauções, de tal forma
que, unidos, cada qual conservava uma certa distância do outro,
mínima, mas o suficiente para conviver, resistindo à longa era
glacial.
Sobreviveram...
Arthur
Schopenhauer
Análise da Música: A construção de Chico Buarque
Análise
da música Construção – Chico Buarque sobre a realidade social
Música
Construção – Chico Buarque
Por
Roniel Sampaio Silva
As
músicas carregam uma constelação de sentidos os quais podem ser
explorados de diversas formas, inclusive, atrelando a letra de uma
música a um determinado contexto social aparentemente sem conexão.
Enxergar essas conexões é ver a realidade de outra maneira por meio
da sociologia. Nessa canção é possível compreender melhor o
conceito de consciência de classe de Karl Marx.
Aspectos
conceituais fundamentais
Para
Marx, as sociedades são formadas pela dialética das condições
materiais e antagonismo de classes. Os indivíduos são agrupados em
classes sociais de acordo com seu papel no processo produtivo. No
capitalismo, o conjunto de indivíduos que detém o controle dos
meios de produção faz parte da burguesia, enquanto os indivíduos
que possuem apenas a força de trabalho pertence ao proletariado. A
Luta de classes diz respeito aos meios que cada um utiliza para fazer
valer seus interesses de classe. Para fazer valer tais interesses é
necessário fundamentalmente ter consciência de classe que faz
parte. Consciência de classe diz respeito a percepção sobre o seu
papel no processo produtivo e a consciência do seu poder de
articulação coletiva. Contrário a isso, temos o conceito de falsa
consciência de classe e ideologia que é a distorção dessa
percepção.
A
canção
A
música “Construção – de Chico Buarque” foi composta no
começo da década de 1970 quando o cantor retorna para o Brasil
depois de um longo período de exílio na Itália. A análise que
esboço é que a “construção” diz respeito às mudanças das
relações de trabalho no Brasil instaurado pelo Regime Militar. A
canção é dividida em três partes. Cada uma das três partes da
música diz respeito a uma rotina de um segmento da classe operária:
1- O trabalhador sem consciência de classe e que é extremamente
explorado, 2- O trabalhador com consciência de classe, 3- A alta
classe média e pequena burguesia.
A
música construção revela a genialidade do compositor em mudar
poucas palavras e dar novos sentidos as mesmas construções da
letra. A canção mostra diferentes perspectivas de trabalhadores e
suas rotinas. A música busca dar um sentido amplo a condição da
classe operária naquele momento. Tanto a primeira parte quanto a
segunda revelam um operário que é sacrificado para manutenção da
“construção”, que poderia ser entendido como o sistema
econômico e social o qual sustentava o regime. Nesta canção o
trabalhador é visto de duas perspectivas e em todas elas é visto
como um a gente de criação e manutenção da construção e ao
mesmo tempo como um agente a ser combatido. Deste modo, a função de
trabalhador cria circunstancialmente uma situação de risco para o
trabalhador descrito na primeira e na segunda parte da música. A
classe média com receio de se submeter aos mesmos riscos dos demais
trabalhadores reproduzem a “construção” e agradecem a sua
existência.
Primeira
Parte (Trabalhadores sem consciência de classe e altamente
precarizado)
A
primeira parte refere-se à rotina do trabalhador sem consciência de
classe e que ainda assim sofre com a precarização do trabalho
característica do “milagre brasileiro”. No período da década
de 1970 houve um considerável crescimento econômico às custas da
ampliação da exploração da classe trabalhadora.
De
acordo com a narrativa deste trecho da canção, o trabalhador não
se enxerga como pertencente a uma classe social que tem uma
trajetória histórica. Enxerga tão somente o presente, o “carpe
diem”. “Amou daquela vez como se fosse a última / Beijou sua
mulher como se fosse a última”. O distanciamento da consciência
de classe a faz pensar apenas de forma individual e privada, pensar
não como classe, mas como individuo e família, pensar nos seus
filhos “E cada filho seu como se fosse o único”. Sua trajetória
não faz ter certeza de que rumo está seguindo no curso da história
(E atravessou a rua com seu passo tímido).
O
trecho “Subiu na construção como se fosse máquina” diz
respeito ao trabalho manual e material (“Quatro paredes sólidas”)
exercido por este segmento da classe operária, apesar da situação
de exploração tal trabalhador apenas lamenta e não transforma seu
lamento (lágrima) em contestação. Seguindo a narrativa, a estrofe
seguinte mostra como o seu salário mal satisfaz suas necessidades de
existência (comida, descanso, lazer).
O
trabalhador morre tragicamente no ambiente de trabalho e sua foça de
trabalho é anulada de modo a não mais favorecer o sistema
(atrapalhando o tráfego).
Amou
daquela vez como se fosse a última
Beijou
sua mulher como se fosse a última
E
cada filho seu como se fosse o único
E
atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu
a construção como se fosse máquina
Ergueu
no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo
com tijolo num desenho mágico
Seus
olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou
pra descansar como se fosse sábado
Comeu
feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu
e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou
e gargalhou como se ouvisse música
E
tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E
flutuou no ar como se fosse um pássaro
E
se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou
no meio do passeio público
Morreu
na contramão, atrapalhando o tráfego
Segunda
Parte (Trabalhadores contestadores com consciência de classe)
A
Segunda parte diz respeito a um trabalhador com consciência de
classe e que se organiza para combater o regime, em especial os
trabalhadores da Guerrilha do Araguaia. Assim como o operário braçal
corre um perigo não pela sua situação de trabalho, mas pelo seu
posicionamento em relação ao regime. O “filho pródigo”
descrito no verso faz alusão as filhos que precisavam sair da casa
dos pais para se esconder dos agentes do regime, enquanto o “passo
bêbado” faz referência a caminhar titubeante de um fugitivo das
autoridades.
O
fato deste trabalhador ter mais esclarecimento a utopia idealizada
para o país não é preliminarmente um projeto material e sim uma
idealização, razão pela qual a segunda estrofe abaixo faz alusão
a um projeto imaginário de país cujo seu olhar está sempre atento
ao “tráfego”, munido de um “desenho lógico”, um projeto de
país a partir do sonho de ter o proletariado como real titular do
poder. Na referência “olhos embotados de cimento e tráfego” faz
alusão à materialidade das coisas (cimento) e à análise dialética
da conjuntura política (tráfego).
Comer,
descansar, berber, são necessidades materiais de todo e qualquer
trabalhador independentemente, o que faz diferenciá-lo é sua
consciência de classe. A morte do trabalhador dotado de consciência
de classe muitas vezes é uma consequência da sua contestação do
próprio capital. A expressão “passeio náufrago” pode ser
entendida como os guerrilheiros que foram mortos às margens do Rio
Araguaia os quais morreram na “contramão atrapalhando o público”,
os interesses do capital travestidos de público endossados pelo
comitê de negócios da burguesia, o Estado.
Amou
daquela vez como se fosse o último
Beijou
sua mulher como se fosse a única
E
cada filho seu como se fosse o pródigo
E
atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu
a construção como se fosse sólido
Ergueu
no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo
com tijolo num desenho lógico
Seus
olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou
pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu
feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu
e soluçou como se fosse máquina
Dançou
e gargalhou como se fosse o próximo
E
tropeçou no céu como se ouvisse música
E
flutuou no ar como se fosse sábado
E
se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou
no meio do passeio náufrago
Morreu
na contramão atrapalhando o público
Terceira
Parte (A alta classe média e pequena burguesia)
Já
na terceira parte da canção faz alusão a uma classe média
improdutiva que não produz a realidade material e que apenas ajuda a
reproduzir ideologicamente os privilégios da burguesia. Este trecho
“Ergueu no patamar quatro paredes flácidas” pode ser associado a
ideologia. . Como nem participa do processo de produção da
construção, apenas na reprodução, sua vida ou sua morte não faz
diferença “Morreu na contramão atrapalhando o sábado”. A
classe média tem uma grande ojeriza e medo de ter uma condição
material parecida com a dos demais operários, por isso é muito
grata (“Deus lhe pague”) à ação do Estado que lhe poupa de
parte das atrocidades proferidas aos outros trabalhadores 1-“Pelos
andaimes pingentes que a gente tem que cair” (trabalhadores braçais
vítimas de acidente de trabalho), 2-“Pela fumaça e a desgraça
que a gente tem que tossir” (trabalhadores contestadores)
Amou
daquela vez como se fosse máquina
Beijou
sua mulher como se fosse lógico
Ergueu
no patamar quatro paredes flácidas
Sentou
pra descansar como se fosse um pássaro
E
flutuou no ar como se fosse um príncipe
E
se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu
na contramão atrapalhando o sábado
Por
esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A
certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por
me deixar respirar, por me deixar existir
Deus
lhe pague
Pela
cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela
fumaça e a desgraça que a gente tem que tossir
Pelos
andaimes pingentes que a gente tem que cair
Deus
lhe pague
Pela
mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E
pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E
pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus
lhe pague
A
música construção conta a trajetória diária da classe
trabalhadora e como se dá sua relação com o cotidiano, com a vida
e com a morte. Cada um dos segmentos do proletariado tem uma relação
diferenciada com o capital, o risco, as recompensas e os esforços. O
risco e a diferença que cada um faz parte em relação a produção
e reprodução do capital é diferente. Em suma, nossa vida material
é especialmente limitada tendo em vista o longo processo histórico
de luta de classes. Por isso que a narrativa é finalizada com a
morte.
Referências
Johnson,
A. G. Dicionário de sociologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1997.
Amor segundo Aristóteles
Aristóteles
Hoje
falaremos sobre Philia, ou o amor de amigo, que já descrevemos em
outras postagens.
Em Ética a Nicômaco, Aristóteles resolveu categorizar os tipos de amizade, e concluiu que seriam três:
1. Pelo prazer mútuo: O amor pelo que é agradável
É aquela amizade que só existe nos momentos de festa e curtição. Nesse tipo de amizade, as pessoas estão interessadas na busca pelo próprio prazer que é possibilitado pela companhia da outra pessoa. Uma vez que não há mais prazer, a amizade se desfaz.
2. Por benefício mútuo: O amor pelo que é útil.
Semelhante à anterior, é uma amizade que só dura enquanto houver a perspectiva de se ter algum ganho. É uma relação estratégica para se conseguir alguma forma de vantagem através da outra pessoa.
Um ponto curioso dessas duas primeiras formas de amizade é que na verdade nossa relação não são com as pessoas em si, mas com os ganhos que elas nos proporcionam. Tanto que essas amizades se desfazem, logo que não se mostrem mais vantajosas.
3. Pela admiração mútua: O amor pelo que é bom
Imagina uma pessoa que não é você, mas você se importa tanto com ela, quanto se importa com vc msm. Para Aristóteles, esse é o nível mais elevado de amizade, pois diferente das outras, não é uma relação só para os bons momentos ou pelos possíveis ganhos. É quando queremos fazer o bem ao outro, sem que seja solicitado, ou que ganhemos crédito por isso.
Não é a toa que amigos de verdade, são raros.
A amizade verdadeira é exclusiva dos homens virtuosos, pois os “maus” só conseguem se relacionar pelo prazer ou pela utilidade. Só o homem verdadeiramente bom é capaz de desejar o bem para si e para seu amigo em uma relação permanente.
E ah, antes que eu me esqueça, desejar o bem não exclui o prazer e o benefício que uma amizade pode proporcionar, a diferença é que a amizade verdadeira não se limita a isso.
Outro detalhe importante é q Philia demanda por reciprocidade, n basta querer o bem do outro, se ele nao te quer bem.
Aristóteles coloca que a amizade é algo necessário para a felicidade humana, tanto que como diz: "Ninguém escolheria viver sem amigos mesmo se tiver todos os outros bens"
Em Ética a Nicômaco, Aristóteles resolveu categorizar os tipos de amizade, e concluiu que seriam três:
1. Pelo prazer mútuo: O amor pelo que é agradável
É aquela amizade que só existe nos momentos de festa e curtição. Nesse tipo de amizade, as pessoas estão interessadas na busca pelo próprio prazer que é possibilitado pela companhia da outra pessoa. Uma vez que não há mais prazer, a amizade se desfaz.
2. Por benefício mútuo: O amor pelo que é útil.
Semelhante à anterior, é uma amizade que só dura enquanto houver a perspectiva de se ter algum ganho. É uma relação estratégica para se conseguir alguma forma de vantagem através da outra pessoa.
Um ponto curioso dessas duas primeiras formas de amizade é que na verdade nossa relação não são com as pessoas em si, mas com os ganhos que elas nos proporcionam. Tanto que essas amizades se desfazem, logo que não se mostrem mais vantajosas.
3. Pela admiração mútua: O amor pelo que é bom
Imagina uma pessoa que não é você, mas você se importa tanto com ela, quanto se importa com vc msm. Para Aristóteles, esse é o nível mais elevado de amizade, pois diferente das outras, não é uma relação só para os bons momentos ou pelos possíveis ganhos. É quando queremos fazer o bem ao outro, sem que seja solicitado, ou que ganhemos crédito por isso.
Não é a toa que amigos de verdade, são raros.
A amizade verdadeira é exclusiva dos homens virtuosos, pois os “maus” só conseguem se relacionar pelo prazer ou pela utilidade. Só o homem verdadeiramente bom é capaz de desejar o bem para si e para seu amigo em uma relação permanente.
E ah, antes que eu me esqueça, desejar o bem não exclui o prazer e o benefício que uma amizade pode proporcionar, a diferença é que a amizade verdadeira não se limita a isso.
Outro detalhe importante é q Philia demanda por reciprocidade, n basta querer o bem do outro, se ele nao te quer bem.
Aristóteles coloca que a amizade é algo necessário para a felicidade humana, tanto que como diz: "Ninguém escolheria viver sem amigos mesmo se tiver todos os outros bens"
Conteúdo para estudo - os Filósofos Pré Socráticos
FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA – Resumo Geral
A filosofia grega, é sistemática e elegante: ela divide o período
antes de Sócrates em três fases, com Parmênides no centro, e
caracteriza cada fase por uma abordagem específica a um problema
comum. Os filósofos não seguiram um emaranhado de projetos
diferentes, mas se ocuparam de uma única busca por uma resposta em
questão.
Essa narrativa fala de progresso. Como historiadores de filosofia,
gostamos de explicar por que alguma coisa aconteceu depois da outra e
precisamos atribuir a certos acontecimentos a função de causadores
de uma mudança.
Vemos que os pensadores que sucederam Parmênides tomaram um rumo
diferente dos que o antecederam e sugere que, ao aprender a lidar com
as dificuldades levantadas por Parmênides, haviam descoberto algumas
verdades importantes e aprimorado seus métodos de investigação.
Duas características que pensamos ser particularmente essenciais à
filosofia são: primeiro, a disposição de debater abertamente com
aqueles que discordam, reconhecendo que há outros pontos de vista
com os quais é preciso lidar; e segundo, a necessidade de argumentar
em termos que o adversário possa compreender e de respeitar os bons
argumentos do outro lado. Podemos nos convencer de que ambas as
coisas estavam acontecendo.
Os pensadores podem ser primitivos, e suas questões podem parecer
muito estranhas, mas eles estavam, aparentemente, discordando uns dos
outros – desafiando e respondendo, um de cada vez, num debate em
câmera lenta.
Logo que Tales ( Séc. VII e VI a.C. ), em Mileto, propôs a ideia de
que a água é a origem de tudo, os outros sentiram a necessidade de
questionar isso: ‘Não da água’, disse um, ‘e sim do ar’;
‘Não do ar’, afirmou outro, ‘e sim, da terra’; ‘De nenhum
desses’, disse um terceiro, ‘mas de alguma outra coisa que na
verdade não é nada em particular’. Todos queriam explicar, da
melhor forma, como o mundo que hoje conhecemos pôde ter se originado
de um único tipo de matéria indiferenciada.
[Anaximandro ( Séc. VI a.C. ) acreditava que são coisas
indefinidas; Anaxímenes ( Séc. VI a.C. ) acreditava que é o ár;
Heráclito ( Séc. VI e V a.C. ) acreditava que é o fogo.]
Essa discussão continuou por algum tempo, com cada colaborador
acrescentando uma teoria plausível para explicar como o mundo pode
ter assumido a aparência que hoje tem, supondo que sua própria
ideia sobre a origem fosse verdadeira.
Algum tempo depois, contudo, por volta da virada do século VI a.C.
para o seguinte, sobreveio uma crise. ‘Esse tipo de teoria é uma
impossibilidade lógica!’, disse um homem chamado Parmênides, que
viveu na região grega do sul da Itália. ‘Uma coisa não pode se
transformar em muitas coisas: o um é um e completamente solitário,
e para sempre será assim, ou melhor, não será, já que não pode
haver tempo futuro, e tampouco passado!’ Bom, todos ficaram
perplexos com o arrojado argumento de Parmênides, que ele
corroborava com uma impressionante série de provas meticulosas e
detalhadas. Se nada pode mudar, e se o que havia antes não pode
transformar-se em algo novo, como explicar as estruturas complexas e
as diferentes coisas que encontramos à nossa volta? Então, todos
resolveram tentar solucionar esse problema. Todos, com exceção de
alguns fiéis pupilos de Parmênides.
Então, uma nova torrente de teorias fluiu, advinda dos pensadores do
início do século V a.C., a maioria delas contestando Parmênides.
‘Talvez’, eles arriscaram dizer, ‘Parmênides esteja correto ao
afirmar que nada se transforma de fato; mas não seria possível que
o mundo fosse complexo desde o início? Suponhamos que tudo o que
existe hoje já existisse desde o princípio: muitas coisas naquele
tempo, muitas coisas agora. Assim, Parmênides pode estar errado ao
dizer que sempre houve apenas uma única coisa.’
E então, eles começaram a formular explicações de como o mundo
pode ter se originado na forma de muitos tipos de matéria: um disse
que havia quatro elementos, outro afirmou que os elementos eram de
número infinito, e outro ainda que havia partículas atômicas
(indivisíveis) de matéria, pequenas demais para que pudéssemos
enxergar a olho nú; mas o que todos sugeriram em uníssono foi que,
mesmo que as partículas microscópicas continuassem sempre as
mesmas, ainda assim, modificando sua disposição, se poderia chegar
a combinações e estruturas que assumiriam muitas formas diferentes.
Desse modo, podemos explicar como as estruturas observáveis do mundo
estão sempre mudando de maneiras que parecem plausíveis, mesmo que
se acredite em Parmênides.
[Parmênides ( Séc. VI e V a.C. ) , Zenão ( Séc. V e IV a.C. ) e
Melisso ( Séc. V a.C. ) acreditavam no Um; Empédocles ( Séc. V
a.C. ) acreditava na terra, ar, fogo e água e também unia o
conceito de monismo com o de pluralismo considerando-os fases de um
ciclo infinito, em que as coisas passam de uma só para muitas, e
depois voltam a ser uma, consecutivamente; Anaxágoras ( Séc. V a.C
) acreditava em numerosos componentes infinitamente divisíveis;
Léucipo e Demócrito ( Séc. V e IV a.C. ) acreditavam em numerosos
componentes indivisíveis e o vazio.]
Então, depois de dois séculos de discussões sobre a natureza do
mundo, eles deixaram suas dificuldades de lado e o período da
primeira cosmologia grega chegou ao fim. Chegara o momento propício
para um novo tipo de questão, desta vez sobre a vida humana e os
valores morais. Entram em cena Sócrates e os sofistas.
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